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“XXXXXX”, 2019. óleo sobre tela. tamanhos variados.

DUPLO NEGATIVO

Os trabalhos de Giulia Bianchi não oferecem uma identificação imediata de seu objeto. Apesar de figurativos, eles nos chamam atenção pela sua plasticidade antes da representação. A fatura aparente específica da tinta a óleo, as pinceladas que remetem à uma gestualidade dinâmica, a paleta cromática caracterizada por tons rosados e avermelhados e tudo aquilo que permeia o campo pictórico enquanto matéria são algumas características que de pronto guiam nosso olhar. A pintura é seu meio, uma das maiores linguagens a se consolidar nas chamadas belas artes. E assim, como princípio de um código visual, existem outros começos na poética da artista que se relacionam com a existência humana.

Em Sigmund Freud, a construção do sujeito ocorre através de uma satisfação da pulsão sexual. Esse desenvolvimento psicossexual da criança inicia-se na fase oral, uma vez que o primeiro gesto de satisfação vem através da sucção do seio materno para obter o alimento. O bebê não tarda a começar levar à boca tudo que está ao
seu redor, numa tentativa de identificação e concomitantemente prazer. Essa busca pela excitação e pelo deleite oral se mantém na vida adulta, intrinsecamente ligado a mucosa dos lábios e a cavidade bucal. Comer, beijar, chupar, lamber, morder, bocejar, sugar, falar e salivar são algumas das possibilidades oferecidas pela boca para satisfação - de si e/ou do outro.

Com este repertório, a série "XXXXXX", assim como produções anteriores da artista, diz respeito a este erotismo conectado com a boca e seu universo simbólico. Não por acaso, esta parte do corpo é marcada por uma mucosa rosada e formato análogo ao órgão sexual feminino. Lábios estão presentes em duas partes de um mesmo corpo; ambas usadas para o prazer. É uma especificidade morfológica feminina esse "duplo negativo" que muito se assemelha, tanto para o gozo como para a dor. A formação do sexo é marcada pela presença constante do cromossomo X e a vulva é definida pela dupla combinação deste. O título identificado por seis "X" aparece agora nas camadas metafóricas da pintura. O que temos aqui é o resultado da multiplicação desse cromossomo: vagina, boceta, xoxota, xereca.

Nota-se que a produção de Giulia Bianchi como um todo está imbuída de uma presença erótica feminina. Mas isso não nos limita a pensarmos que existem outros caminhos para onde essa presença pode desencadear. Que bocas (ou vaginas) são estas?  Poderíamos pensar na emancipação da mulher pela sexualidade? De quais mulheres? Todas? Seria razoável continuar definindo mulher como um corpo único? Essas são algumas inquietações possíveis a partir a leitura desta série de pinturas, que nos parece apenas um começo de uma vasta pesquisa.

 

Bruna Costa e Paula Borghi 
(Curadoras e mestrandas em História e Crítica de Arte pelo PPGAV/UFRJ)